Rituais

Acordou apenas no final da música. Com as ruas vazias e o corpo cansado. Nem a água que caia do chuveiro sobre sua cabeça tinha conseguido acordá-lo. Passou os últimos 05 minutos e 39 segundos com os ouvidos e os sentidos fechados para o mundo. Um imenso headphone enfiado nas orelhas e a percepção desligada. Um headphone nos ouvidos, um chuveiro pingando sobre a cabeça e nenhuma ligação com o mundo. Girando. Ele e o mundo. Fechando-se. Ele e a percepção. Os sentidos. As vontades. Seu reino resumindo-se. Seu castelo. Sua casa. Mas... cantava. De um jeito torto, exprimia-se. Espremia-se. Exorcisava-se. O braço esticado mantinha o compact disc player a salvo da água. A cabeça levemente caída a frente cuidava para que os headphones não fossem atingidos também. A nuca, vermelha, era prova de que a insistência da água podia causar estragos. Ele, inteiro, era prova de que a ausência podia causar estragos. Ele era assim. Tornava-se ausente. Tornava-se um estrago. Seu corpo era evidência. Fazia sete meses que não colocava os pés na rua. Alías, não colocava os pés no chão. Ia da cama para a cadeira. A cadeira servia para que ele se locomovesse pela casa. Não era uma cadeira de rodas.
Era uma cadeira de escritório normal. Ele é quem não estava normal. O único lugar em que conseguia colocar os pés no chão era debaixo do chuveiro. Sobre o pequeno tapete de plástico embaixo do chuveiro. E só conseguia entrar no chuveiro quando escutava música. E quando escutava música, fechava-se para o mundo. Seu pequeno virtual alienante.
Era uma cadeira de escritório normal. Ele é quem não estava normal. O único lugar em que conseguia colocar os pés no chão era debaixo do chuveiro. Sobre o pequeno tapete de plástico embaixo do chuveiro. E só conseguia entrar no chuveiro quando escutava música. E quando escutava música, fechava-se para o mundo. Seu pequeno virtual alienante.





A (entrando): ...um idiota, isso sim é o que ele é!



