[Do lat. imp. improprietate.]

... Substantivo feminino ... 1. Qualidade de impróprio ... 2. Inconveniência, oportunidade ... 3. Incoerência, absurdo ... 4. Deslize, lapso; incorreção: Sua linguagem se ressente de muitas impropriedades

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Rituais




Acordou apenas no final da música. Com as ruas vazias e o corpo cansado. Nem a água que caia do chuveiro sobre sua cabeça tinha conseguido acordá-lo. Passou os últimos 05 minutos e 39 segundos com os ouvidos e os sentidos fechados para o mundo. Um imenso headphone enfiado nas orelhas e a percepção desligada. Um headphone nos ouvidos, um chuveiro pingando sobre a cabeça e nenhuma ligação com o mundo. Girando. Ele e o mundo. Fechando-se. Ele e a percepção. Os sentidos. As vontades. Seu reino resumindo-se. Seu castelo. Sua casa. Mas... cantava. De um jeito torto, exprimia-se. Espremia-se. Exorcisava-se. O braço esticado mantinha o compact disc player a salvo da água. A cabeça levemente caída a frente cuidava para que os headphones não fossem atingidos também. A nuca, vermelha, era prova de que a insistência da água podia causar estragos. Ele, inteiro, era prova de que a ausência podia causar estragos. Ele era assim. Tornava-se ausente. Tornava-se um estrago. Seu corpo era evidência. Fazia sete meses que não colocava os pés na rua. Alías, não colocava os pés no chão. Ia da cama para a cadeira. A cadeira servia para que ele se locomovesse pela casa. Não era uma cadeira de rodas. Era uma cadeira de escritório normal. Ele é quem não estava normal. O único lugar em que conseguia colocar os pés no chão era debaixo do chuveiro. Sobre o pequeno tapete de plástico embaixo do chuveiro. E só conseguia entrar no chuveiro quando escutava música. E quando escutava música, fechava-se para o mundo. Seu pequeno virtual alienante.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Bestas




Acordou que era uma besta! Isso mesmo, uma besta. Com suas longas orelhas de burro - que é como também são conhecidas as bestas - andando de um lado para o outro. Nunca soube dizer se não percebeu que tinha acordado dessa forma ou se sempre foi assim e eu é que não tinha me dado conta. De qualquer forma, sua silhueta era, por assim dizer, bastante peculiar - visto que não encontro outra palavra. Talvez surreal fosse a mais adequada. Isso... surreal! Um focinho deveras engrandecido, se é que as bestas tem focinho. Desculpem-me, mas não estou familiarizado com as bestas. No meu dia a dia costumo somente conviver com pessoas mais desenvolvidas, pelo menos eu gosto de pensar que seja assim. Morreria de medo se começasse a imaginar que de uma hora para outra as pessoas pudessem começar a acordar como bestas. Ou será que apenas teriam sua verdadeira face revelada. E se assim for, qual seria a minha face real? Teria eu algum tipo de animal escondido em mim? Amanhã, quando acordar, poderei estar transformado também em uma besta?


Sábado, 20 de Junho de 2009

Mais um dia.




Abro os olhos. Lentamente começo a acordar. Minha perna escorrega suavemente para fora da cama. Primeiro uma. Depois a outra. As panturrilhas pendem para fora do colchão. - Mais um dia! - digo. Mais um dia. Levanto. Vou ao banheiro. Escovo os dentes. Lavo a cara. A água gelada me incomoda. Não tomo café... Eu nunca tomo café. Não fumo. Não tenho vícios. Coloco uma cueca limpa. Me visto. Desodorante. Perfume. Me olho no espelho. Estou pronto. Vou até a porta. Seguro a maçaneta fria. Giro. Abro a porta. A claridade me incomoda. Caminho. Caminho. Caminho. Ponto de ônibus. - Poderia ter acontecido dentro do ônibus... - penso. O ônibus chega. Não tomo o ônibus. Caminho. Caminho... Chego a uma avenida. Grande. Imensa. Ruidosa. Barulhenta. Melhor não... Tomo o ônibus. Sento em um dos bancos do fundo. Durmo. Quando abro os olhos vejo as pessoas olhando pra mim. Fecho os olhos. Minha perna escorrega para fora da cama. Depois a outra. - Mais um dia! - A água gelada me incomoda. Eu nunca tomo café. Não tenho vícios. Levanto. A claridade me incomoda. Caminho. Chego à garagem. Ligo o carro. Ligo o rádio. Escuto as notícias. Me informo do tempo. Me informo da economia. Sou um habitante economicamente ativo. Leio o jornal. Pago minhas contas. Tenho uma alimentação baseada em uma dieta rica em vegetais, frutas e grãos. Como pouca gordura, colesterol e gordura saturada. Uso açúcar com moderação. Uso sal com moderação. Eu aprendi que para manter uma alimentação saudável não preciso largar as comidas e bebidas prediletas. Aprendi a balancear minha alimentação. Aprendi a acomodar meus alimentos preferidos e saborear as refeições enquanto promovo minha saúde. Aprendi que devo preferir alimentos como massas, arroz, grãos, pães, cereais; vegetais; frutas; laticínios com pouca gordura; carne magra, frango, peixe e legumes. Essas comidas são a estrutura para uma dieta saudável. Não há alimento "bom" ou "ruim". Minha dieta como um todo é que é importante. Não há alimento "bom" ou "ruim". Não há "bom" ou "ruim". Não há.

Dirijo em direção ao trabalho. Ligo o rádio. Sou um habitante economicamente ativo. Sou capaz de limpar minha própria sujeira. Sou capaz de não deixar pistas. Sou capaz. Sou gentil. Sou educado. Sou capaz. Sou gentil. Sou educado. Educado. Chego ao trabalho. Cumprimento as pessoas. Sorrio. Sou e-du-ca-do. Sou popular. Sou querido pelos meus companheiros de trabalho. Acredito no convívio pacífico. Acho todos um bando de idiotas. Uma mulher com cabelos vermelhos vem em minha direção. Me cumprimenta. Me pergunta coisas. Ela sorri. Eu sorrio. Nós...sorrimos. Presto atenção em sua boca movendo-se perto de mim. Não escuto o que ela fala. Ela me pede algo. Eu não escuto. Abro uma gaveta da minha mesa. Não há nada. Só uma faca. Aprendi a balancear minha alimentação. Aprendi a acomodar meus alimentos preferidos e saborear as refeições enquanto promovo minha saúde. Carne magra, frango, peixe e legumes. Não há alimento "bom" ou "ruim". A mulher de cabelos vermelhos continua falando. Seu batom está borrado no canto da boca. - Será que ela beijou alguém antes de vir falar comigo? - penso. - A senhora não cala a boca nunca? - penso. A gaveta aberta e a mulher ali na minha frente. A boca da mulher. Os seus cabelos vermelhos. Caindo sobre o pescoço. Abro os olhos. As panturrilhas pendem para fora do colchão. Me olho no espelho. Estou pronto. Vou até a porta. Caminho. Caminho. Caminho. Não tenho vícios. Minha dieta como um todo é que é importante. Eu aprendi. Sou educado. Eu sorrio. - O dia está apenas começando... - penso. - Mais um dia! - digo. Mais um dia.



Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

A Entrevista

- Hein? Água? Sim, aceito. Gelada, sim... Por favor. Você sabe se demoram muito para vir me buscar? Tô nervoso. Nunca dei entrevista para a televisão. Nunca achei que minha vida fosse interessante o suficiente. (pausa) É você quem vai me maquiar? Não? Hummm... Eu aguardo. (pausa) Você sabe porque me chamaram aqui? Querem que eu fale da gravidez que eu tive? Eu não falo sobre isso. Se for para falar sobre isso eu vou embora agora... (exaltando-se) Eu estou calmo! Não fique dizendo para que eu me acalme. Eu não estou nervosa, digo, nervoso. (pausa) Será que ainda vai demorar para me chamar? A que horas começa o programa mesmo? Nunca dei entrevista para a televisão. Eu vou falar sobre o meu trabalho, né? Como? Sobre a gravidez? Eu já não disse que eu não falo sobre isso? O que é que vocês poderiam querer saber sobre isso? Foi uma gravidez normal!!! Bom... Quase normal. (exaltando-se) Sim, o único fato distinto foi por eu ser um homem... Um homem!!! (gritando) Por favor, pare de falar sobre isso... Há anos que eu não falo sobre esse assunto... Eu vim até aqui para falar sobre o meu trabalho. Ninguém quer saber do meu trabalho? É uma notícia que não vende? Minha vida não é interessante? O povo quer ouvir sobre coisas engraçadas? Coisas... Engraçadas... Minha gravidez é uma coisa engraçada? Pois bem, então eu vou lhes contar uma história engraçada... Que começa com a minha gravidez. Como eu engravidei? Oras, da maneira normal... Eu já fui uma mulher. (com ironia) Você sabe como é que uma mulher engravida, não é? (muda de tom) Eu nasci no corpo errado. Sempre fui um homem no corpo de uma mulher... Mas isso já faz tanto tempo. (chora) Está vendo? É por isso que eu não gosto de falar sobre essas coisas... (com irritação) Ai, por favor... Não faça todas essas caras e bocas que você me irrita. Eu não deveria estar aqui... Me disseram que a entrevista era sobre o meu trabalho... E agora isso? Coloquei o meu melhor terno... (pausa longa) Esse era o terno que eu estava usando no dia em que eu o encontrei morto... Já faz tanto tempo... Lembro de tê-lo pego nos braços e chorado sobre o seu corpo. E tentado reanimá-lo, e... Ele vivia reclamando de que as pessoas o apontavam na rua... Que as pessoas colocavam apelidos nele... - Olha, lá vai o filho do viado! - E riam... - Por onde será que você saiu quando nasceu? - E riam... E riam... E jogavam pedras. Até que um dia uma das pedras o acertou na cabeça. (pausa) Que foi? Você não quer mais ouvir a história? (com ironia) Mas agora que ela está ficando tão interessante... (mais ironicamente) Você não queria uma história engraçada? Imagine como eu achei engraçado quando encontrei o meu filho caído com a cara no chão. Eu estava lavando a roupa em casa e senti que algo estava errado. (seca) Eu era a mãe dele. (chora) E quando eu o encontrei na frente de casa, ele já estava morto. Ninguém teve coragem de gritar por socorro... Eu o peguei nos braços... E ele já estava morto. Morto. (seca) Desculpe, eu não devia ter colocado esse terno hoje. Mas você não tem nada a ver com isso, não é? Você só precisava de uma história engraçada para colocar no seu programa de TV. Hein? Água? Não obrigado... Eu não preciso da sua água.

***Texto escrito para o Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná como exercício que tinha a seguinte indicação: escrita de um monólogo a partir de duas imagens, criando um percurso de transformação entre a primeira e a segunda.

Imagem 01:
Imagem 02:

Sábado, 9 de Maio de 2009

Uma cena...

A (entrando): ...um idiota, isso sim é o que ele é!

B (acordando): Hein?
A: Um imbecil pintado de verde...
C: Vai começar a cena... Aliás, já começou.
A (cada vez mais exacerbado): Um idiotinha querendo ser mais do que é... Isso é coisa que se diga? Sim, porque... Oras... As pessoas precisam ter limites... Não se pode ir despejando todo o lixo em cima de outra pessoa e achar que é assim mesmo...
B: Como?
C (para B): Não se meta, você é apenas um coadjuvante.
A (espumando): Ai que vontade de ... (faz sons estranhos)
C: Isso é que é contemporaneidade.
B: De quem você está falando?
A (exausto): Daquele idiota japonês... Aquele imbecil chinês... Aquele anormal chileno... Aquela anta colombiana...
C: É um negro!
A: Nem português ele fala.
B (sem entender): Ahhhh...
C: É mudo.
A: Ficou me perseguindo... Estava de marcação comigo... De um lado para o outro... Pra cima e pra baixo...
B: Hummmm...
C: É aleijado.
A: Uma ova!
B: De quem vocês estão falando, afinal de contas?
A: De um filho da puta!
C: De um sujeito que a partir de agora será denominado "ausente". (pausa) Ausente de princípios. (pausa) Ausente de determinação. (pausa) Ausente de desejos e vontades e complicações e existência. (pausa) Um sujeito que não vê outra coisa que não seja o umbigo. (pausa) Na verdade, um sujeito que não vê. (longa pausa) É cego!
B: Vocês estão falando de mim? Eu estava dormindo.
A (gritando): Um filho da puta!
C: Como a maioria de nós.
A (gritando): ...um filho da puta, isso sim é o que ele é!
B (tranquilo): Eu sonhei que havia alguém ausente. Eu sonhei...
C: Um momento lírico... Talvez...
B: ... Sonhei que ele me balançava calmamente em uma rede. E seu rosto era calmo e tranquilo... E ele me dizia palavras doces... E ele me dizia que eu não devia me preocupar com nada... E ele me dizia que eu não era um inútil... E ele era doce... (angustiando-se) Mas ele não tinha rosto... Ele não tinha rosto... Em alguns momentos era somente um borrão, noutros tinha uma cabeça de cavalo... Em outros ainda era como se ele não existisse...
C: É só um pretexto. (longa pausa) Talvez.
A: Não era um sonho... Eu o vi... Ele falou comigo. Tenho certeza. (confuso) Ele me xingou. Era rude. Arrogante. Gritava. Xingava. Eu o vi. Eu acho que o vi. Estava escuro, mas ele me tocou. Isso... Ele me tocou... E disse... (pausa) E disse...
C: É preciso terminar a cena!
A: Não...
B: Tenho sono...
A: Seu imbecil...
C: Como a maioria de nós.
A: Você é como ele... Um idiota... Prepotente...
B: Muito sono... Preciso de silêncio...
C: Já está acabando.
A (enquanto sai, vai aumentando o volume): Um idiotinha querendo ser mais do que é... Isso é coisa que se diga? Sim, porque... Oras... As pessoas precisam ter limites... Não se pode ir despejando todo o lixo em cima de outra pessoa e achar que é assim mesmo...
(longa pausa, silêncio)
C: Acabou.
(B adormece)



* Texto escrito para o Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná como exercício que tinha a seguinte indicação: "Triálogo. Três personagens descrevem e julgam a um quarto personagem (ausente). Concordâncias e discrepâncias."

Domingo, 26 de Abril de 2009

Casos



O caso é que eu poderia justificar muitas das coisas que fiz na vida em função da criação que tive... e não podemos todos?... as mães e os pais empenham-se em construir-nos dessa ou daquela maneira. Nos dão esse ou aquele papel para desempenhar. Somos treinados nas técnicas de interpretação desde muuuito pequenos. Pequenos atores macacos lutando por seu amendoim maternal.

O caso é que eu nasci, como todo mundo, antes de morrer.

O caso é que, antes de mim, houve outros. Outros com suas histórias e que também nasceram e que também morreram e que também fizeram cagadas e que também souberam esconder as cagadas que fizeram e que também colocaram a culpa de suas cagadas nos seus pais e que também contribuíram para essa merda chegar ao estágio que está.

O caso é que tem dias em que eu saio da cama e só vejo desolação no mundo.

O caso é que eu fico pensando se nesses dias eu estou exagerando, vendo o mundo com lentes pessimistas ou se ele é esse território árido mesmo. Será que nossos pais e mães foram tão incompetentes a ponto de deixar as coisas chegarem a este ponto? Qual seria o truque adequado nesse momento para ganhar aquele agradinho maternal? 

O caso é que eu não trarei ninguém para este mundo.

Não me sinto competente para dar outra continuação/criação/educação a ninguém. E se é para cometer os mesmos erros que eu sei que cometeram comigo, prefiro dar um fim a minha linhagem de imbecis. Não quero ser acusado de espalhar a peste. Mais peste nesse mundo repleto de animais.

O caso é que... eu, desisto! Enterrem meu corpo na curva do rio...


Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Este blog vai virar uma peça de teatro!


Agora é oficial... a idéia de transformar este blog em uma peça de teatro vai, finalmente, tomar forma. Calma, calma que eu explico:

Em alguns momentos, desde sua criação, este espaço aqui recebeu alguns textos que foram pensados para serem colocados na boca de alguns personagens. Desde os classificados com a tag "sangrentos" quanto os "ficcionais" e até os "meta-ficcionais" na verdade sempre foram exercícios de escrita.

Pois bem... neste o início desse ano, nasceu em mim a vontade de transformar esse material que reúno aqui em um espetáculo teatral. Um espetáculo que fosse também um exercício distinto do que comumente faço. Dessa vez não recorreria a nenhum autor famoso ou clássico. Ninguém que já tivesse sido representado antes. Este projeto nasceria das coisas que escrevo. Seria criado a partir das observações que tenho feito na minha breve vida virtual. Teria seu processo de trabalho compartilhado com os (poucos) leitores que tenho.

Eis que essa vontade acabou sendo passada para o papel, transformada em projeto. E  o mais novo projeto de espetáculo da Cia. acaba de receber uma premiação! Fomos contemplados com o Edital Miriam Muniz (da FUNARTE, com patrocínio Petrobras) para realizar a montagem do espetáculo Pequeno Inventário de Impropriedades.

Primeiro projeto totalmente autoral da Téspis Cia. de Teatro, o Pequeno Inventário deve estrear no segundo semestre de 2009... e mais, no momento, não posso contar! (rs)

Mas o projeto prevê ações que serão realizadas utilizando a web como meio de criação, assim que, fiquem atentos que teremos muitas novidades por aqui. Contamos com sua participação